O Titanic é um navio de fama colossal, nos dias atuais é comum assistir em documentários à antigas gravações em preto e branco que são frequentemente citadas como sendo imagens reais do verdadeiro Titanic, e logicamente não é difícil deixar-se levar pela "peça pregada" por estes documentários, pois não se têm um fonte segura destas afirmações passadas pela mídia.
Hoje se sabe amplamente que existe apenas um filme real que mostra o Titanic na época em que ele estava à tona, ou seja, imagens reais gravadas do navio no início do século passado. Com o propósito de "limpar" esta fantasia passada pela mídia o TITANIC EM FOCO traz esta matéria que põe à luz e estudo o único e verdadeiro filme que se conhece deste navio lendário.
BOA LEITURA

O filme têm pouco mais de doze minutos e foi impresso em rolo de filme de nitrato e estava guardado com uma família, até o momento em que um descendente do "dono" original leu que um filme semelhante de quatro minutos tinha sido vendido em leilão por £ 5,000 (cinco mil libras). O proprietário comunicou a casa de leilões Henry Aldridge, que percebeu a grande importância histórica do achado. O rolo de filme estava em perfeitas condições apesar de sua caixa fortemente corroída, e acompanhava uma plaqueta de identificação onde se lia:
"Do Cinema Odeon, Greenock. Por favor, devolva o conteúdo"
Segundo a casa de leilões Aldridge o filme poderia ter sido completamente perdido caso houvesse ficado exposto à luz, dado que é composto com nitrato, um material altamente combustível se exposto ao calor.

Acima um rolo de filme de nitrato similar ao que fora encontrado do Titanic, neste caso especícfico é um raríssimo filme de 35 mm com aproximadamente 7 minutos de duração de Charlie Chaplin que esteve perdido durante décadas. Filmes de nitrato são extremamente combustíveis, se incendeiam rapidamente e ao longo da história causaram acidentes graves nos antigos cinemas.
As cenas em P&B mostram três ou quatro cortes do RMS Titanic adentrando a “Thompson Graving Dock” (doca seca) em Belfast, Irlanda, no dia 03 de fevereiro de 1912, apenas 72 dias antes do terrível naufrágio onde morreram 1.500 pessoas. O restante das imagens são do navio Carpathia, da Companhia Cunard Line, ao trazer os sobreviventes da catástrofe para New York, e algumas cenas de icebergs gravadas no Atlântico Norte.
O FILME
Esta versão foi editada apenas com as tomadas que mostram o Titanic, estas são as únicas cenas reais do Titanic que, somadas, duram apenas 1:38 min.
Apenas 72 dias depois destas imagens o Titanic colidia com o iceberg no meio do Atlântico-Norte e naufragava às 2:20 da madrugada de 15 de abril de 1912, resultando na morte de mais de 1.500 pessoas.
Versão editada para visualização de detalhes
DICA: para observar o nome "TITANIC" escrito na proa, analise a gravação aos 0:42 min e aos 1:36 min, mas preste muita atenção, não é fácil identificar as letras escritas no costado do navio.
Edição e divulgação do vídeo: Andrew Carey
Do vídeo acima: O nome "TITANIC" gravado na proa de bombordo, ainda que não esteja totalmente nítido, basta um pouco de esforço para se identificar o nome completo.


Mas o navio do vídeo não é o Olympic?


O RMS olympic em New York, Estados Unidos e o RMS Titanic em águas de Southampton, Inglaterra.
Dentre as diferenças visuais externas entre os dois navios, uma das mais notórias era de que o convés de passeio, o deck A do RMS Olympic não foi equipado com janelas envidraçadas, algo que só foi incorporado no Titanic já nos estágios finais de sua construção por sugestão. Os passageiros do Olympic reclamavam que ao andar pelo convés de passeio eram pulverizados pela água lançada da proa e do mau tempo, dado que este convés era totalmente aberto, como uma gigantesca varanda voltada para o mar.
Devido à configuração das janelas do Titanic no vídeo apresentado, há uma grande confusão, onde muitos alegam que o navio na gravação é o Olympic, pois apenas neste navio o convés A era totalmente aberto, enquanto que no Titanic o convés A era parcialmente protegido com janelas de vidro.

Uma visão lateral do Olympic, no qual o convés de passeio era aberto para o exterior, onde os únicos impedimentos eram as colunas de sustentação do convés superior, o Deck de botes.

A configuração do convés A no Titanic foi modificada com a instalação parcial de janelas de vidro, estas janelas eram corrediças, podiam ser abaixadas e levantadas através de uma manivela que situava-se na parte inferior, de modo muito similar à janelas de um automóvel.


À esquerda o Olympic no cais de equipagem da Harland and Wolf em 1910 e à direira o Titanic no mesmo local em 1911. Nesta etapa da construção os dois navios são confundidos, visto que até este estágio o Titanic não havia recebido as famosas janelas com vidro em parte do convés A, e é esta modificação exterior que diferenciaria os dois navios de modo mais rápido.


Os closes das duas fotos grandes identificam os navios. À esquerda as anotações feitas pelo fotógrafo diretamente na placa do negativo de vidro identificam o RMS Olympic. À direita o nome "Titanic" escrito na proa comprova a identidade do navio.
Portanto o raro vídeo é verídico, ou seja, realmente é do Titanic e segue sendo a única gravação que existe do navio mais famoso do mundo.
Onde o Titanic estava quando o vídeo foi gravado?
O filme foi gravado na cidade de Belfast, Irlanda do Norte, na área que abrange a Thompsom Graving Dock (doca seca) de propriedade da Harland and Wolf, a construtora do Titanic. Nas imagens raras o Titanic adentra lentamente a doca que está inundada pela água do rio Lagan e que na seqüência teve sua enorme antepara fechada para que a água fosse bombeada. Este bombeamento só ocorreu quando o Titanic estava em posição segura e devidamente apoiado. Este trabalho era necessário para dar seguimento ao processo de pintura do casco e finalizações.
Abaixo - Uma visão aérea dos Estaleiros Harland and Wolff em Belfast, o "berço" onde nasceu o Titanic. A seta vermelha indica o exato local onde foram construídos o Olympic, o Titanic e o Britannic, chamados de "Olympic Class Liners" (Transatlânticos Classe Olympic). A seta amarela indica a localização da gigantesca doca seca Thompsom, onde foram realizados os trabalhos de finalização do trio de navios-irmãos e onde foi gravado o filme discutido nesta matéria.
Clique na Imagem para ver o local via GOOGLE MAPS
A fotografia abaixo foi feita em 1911, mostra um panorama dos estaleiros Harland and Wolf, e da doca Thompson, onde as imagens do filme foram gravadas.

Uma visão da Thompson Graving Dock nos dias atuais, o local segue preservado.
No vídeo a seguir acompanhe como se deu este processo de atracar o Titanic na doca seca, siga o processo a partir de 2:47 min.
Outros vídeos alegados como verídicos
Existem vários outros vídeos que são proposital ou inadvertidamente alegados como sendo verídicos do RMS Titanic, mas em todos os casos, sem nenhuma excessão, são todas imagens do RMS Olympic ou de outros navios, atualmente não se conhece nenhuma outra gravação verídica do Titanic, a não ser é claro as gravações do navio em sua condição atual, "descansando" sobre o leito oceânico à quase 4 Km de profundidade.
Assista abaixo o mais famoso vídeo que ainda hoje é erroneamente alegado como sendo do próprio Titanic. Neste filme, com excessão às imagens do RMS Carpathia aportado em New York logo após o desembarque dos sobreviventes do Titanic, todo o restante das imagens é na realidade do RMS Olympic, o navio irmão do Titanic.
Há décadas esta gravação é corretamente reconhecida pelos estudiosos e instituições internacionais como pertencente ao Olympic, no entanto sua frequente aparição em reportagens e documentários onde é citada como pertencente ao Titanic faz com que ainda hoje, 100 anos depois do naufrágio, seja grosseiramente mal identificada. O fator primário e agravante, neste caso, é que a gravação em questão foi exibida nos dias posteriores à tragédia do Titanic nos cine notíciários, época em que foi editada com legendas sobre o Titanic; e desde então é incorretamente creditada.
Estas imagens foram feitas nos conveses do Olympic provavelmente por ocasião de sua primeira viagem à New York em 21 de junho de 1911, ou seja, 10 meses antes do naufrágio do Titanic.
Analise o vídeo aos 03:48 min, basta uma observação rápida para que se note que o local de onde o navio está partindo é, na realidade, o cais de Nova York, onde o Titanic jamais aportou; portanto as imagens são efetivamente do Olympic.
Ao lado: Em Nova York, Estados Unidos, o extinto Píer 59, da White Star Line, o exato local onde o Titanic teria atracado em 17 de abril de 1912, caso não houvesse naufragado na madrugada de 15 de abril. É precisamente de um destes píers que, no vídeo abaixo, o Olympic está partindo, invalidando então as alegações de que este seja um filme do Titanic.
Abaixo: O Olympic atracado na doca 59 da White Star Line no porto de New York, o mesmo local onde o Titanic teria atracado em 17 de abril de 1912. A contínua fileira de botes salva-vidas no convés superior evidencia que esta é uma imagem pós-desastre do Titanic, quando foram feitas bruscas alterações nas leis da segurança naval, obrigando todos os navios à disporem de botes salva-vidas para todos à bordo.

As "marcas" do Olympic
Abaixo seguem 05 imagens (retiradas do vídeo acima) que provam que estas não são gravações do Titanic.



( direita, acima) - O Convés de Passeio (Convés A) do Olympic: a imagem foi feita com a câmera voltada para a proa (frente do navio); o destaque amarelo indica a configuração da enorme varanda aberta deste Convés, algo que no Titanic foi alterado com a utilização de janelas basculantes com vidro. (ao lado) Na imagem exterior do navio, o destaque vermelho indica a varanda aberta do Olympic.


(direita, acima) - A ponte de atracagem no Castelo de Popa do Olympic: Esta estrutura elevada que percorria toda a extensão da popa servia como uma ponte de comando alternativa nos momentos em que eram feitas manobras delicadas próximo dos portos. No Olympic (acima) a plataforma de atracagem se extendia apenas até a borda do Castelo de Popa, possuindo uma pequena plataforma móvel que aumentava sua extensão por sobre as grades de proteção na borda do convés, possibilitando a observação mais efetiva das laterais do casco do navio. No Titanic esta ponte de atracagem foi construída inteiramente de modo sólido extendido, ultrapassando em cerca de 2 metros as grades de proteção da popa; e isto evidencia que a imagem é também do Olympic.

Crédito
Pesquisa, tradução e reedição de texto e imagens - Rodrigo, TITANIC EM FOCO